sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Capitão Nascimento e a inversão de valores

[1] Recentemente um amigo socialista, pelo MSN, veio me dizer horrorizado que uma torcida de futebol estava cantando no estádio o famoso “Pede para Sair!” do Capitão Nascimento, o que seria um indício da “admiração torta” de grande parte da sociedade por um torturador. A Carta Capital, revista preferida da esquerda “chic e bem informada”, na sua capa de outubro publicou uma capa com a foto do Capitão Nascimento e o titulo: O Novo Herói Nacional, também com aquele tom “olha que horror, um bando de reacionários, fascistas e blábláblá”. Em toda a imprensa, intelectuais e jornalistas de esquerda desfilaram artigos e mais artigos em tom de reprovação a esse novo herói da vilã preferida da esquerda estatólatra, a classe média (aliás, esse ódio à classe média é revelador).

[2] Pois bem, antes de qualquer coisa, minha opinião sobre o comportamento da policia mostrado no filme está aqui. Quem for comentar sobre o que eu acho certo ou errado, leia o texto linkado. O que quero dizer, na verdade perguntar, com o presente post é porque a surpresa dessa gente, porque o susto? Foi a esquerda chic, que vive trancada em departamentos de sociologia, história das universidades, mora nos Jardins, Morumbi e adora falar das dificuldades dos pobres do Jardim Ângela, Cidade Tiradentes que criou tal reação. Foi a encheção de saco da pregação desse povo, de que bandido é uma vitima da sociedade, não tem culpa alguma pelo que fez (na verdade a culpa é da vitima), fez porque não teve oportunidade alguma e que, portanto, crimes devem ser combatidos não com policia e penas, mas sim com escolas, parquinhos, creches, subsídios e mais subsídios do governo para compensar injustiças sociais, que criou o “monstro”. Foi esse discurso pronunciado quase toda vez que aparece o tema criminalidade que acabou gerando a reação contrária: “o tem é q matar tudo mesmo!”.

[3] Essa reação “pró-outro lado” não é só resultado do fato de que as políticas de combate ao crime baseadas nas idéias de “coitadismo do bandido” fracassaram completamente. Ela é uma reação à inversão completa de valores que uma defesa desse tipo leva. A esquerda em geral, incluindo a chic que adora uma ONG sem N, programas sociais, subsídios para os pobres mas quer continuar assistindo tranquilamente seus filmes “cults” no Espaço Unibanco, HSBC Belas Artes, sem essa história de revolução, armas, ditadura do proletariado etc.. etc.. se vê como defensora dos pobres e oprimidos, como os cavaleiros da justiça e da bondade diante das atrocidades que a sociedade consumista, capitalista causa aos pobres. No fundo o que eles sentem em relação aos pobres é desprezo, um ar de superioridade tão grande que os fazem transformar esses pobres em semi-humanos, bestas sem consciência, sem arbítrio, sem vontade, enfim, sem razão. Tudo aquilo que significa um ser humano, que o diferencia dos demais animais, não está presente nos pobres.

[4] Ao mesmo tempo que esse tipo de caracterização ofende, pelo menos deveria, a maioria dos pobres que escolhe ganhar seu próprio sustento de forma honesta, através do seu trabalho, ela serve de proteção aqueles que também escolhem roubar ou matar alguém. As noções de responsabilidade e mérito pelas próprias escolhas que qualquer adulto deveria ter, desaparecem completamente. Pobres são zumbis sem consciência, controlados pela malvada sociedade capitalista. Quase como bebês indefesos que não são capazes de se sustentarem e realizarem escolhas. Mas quem são os protetores desses bebês? Obviamente a culta e esclarecida esquerda que adora usar o governo, entenda-se, o dinheiro dos outros, para financiar suas supostas boas ações.

[5] Mas além de desmerecer os pobres honestos, trabalhadores que decidiram deliberadamente seguir tal caminho, outra perversão aparece: a legitimidade do parasitismo. As pessoas não são aquilo que elas escolhem ser. Não há escolha, principalmente para os mais pobres. Não há esforço, trabalho, perseverança. Não adianta tentar trabalhar e viver dignamente. O sistema, injusto por natureza sempre “privilegiará” alguns em detrimento dos outros. Diante de tamanha injustiça, nada mais natural que os despossuídos cobrem a conta dos “privilegiados”.

[6] Para o leitor que achar tudo isso um exagero, sugiro procurar a réplica, publicada pela Folha de SP, do escritor Ferréz ao texto do Luciano Huck chamando o capital Nascimento, texto feito após o roubo de um rolex do apresentador no trânsito de São Paulo. Mas, até mais interessante que a réplica são as discussões espalhadas pela internet, em fóruns, comunidades socialistas. O princípio preponderante em toda essa linha é um só: ricos são ricos porque exploram os pobres. Os pobres que assaltam os ricos estão apenas dando o troco, apenas reparando a injustiça que sofrem diariamente. Se os ricos não querem ser mais assaltados, que sustentem os pobres. Que dê aos pobres o que eles querem. Nada mais justo, diante do que eles, ricos, fazem com os pobres.

[7] Essa mentalidade de que existe uma reclamação legitima dos pobres diante dos “ricos”, dado que os primeiros seriam explorados, roubados pelos segundos, está tão enraizada atualmente no Brasil que não é incomum em ônibus ou trem algum pedinte começar o pedido com um “Eu poderia estar roubando, matando, fazendo coisa errada, mas estou aqui pedindo...” quase como uma ameaça velada, do tipo: me dê agora para não reclamar depois, afinal você, que tem um pouquinho a mais que eu, é o responsável por isso. Eu estou dando uma chance a você. Também não é muito incomum, naqueles programas policiais, algum bandido quando é entrevistado soltar um: eu apanhava dos meus pais, ou o bordão maior “eu não tive escolha”.

[8] A idolatria ao Capitão Nascimento, que vem deixando a esquerda horrorizada (e eles têm razão em ficar horrorizados, quem leu o meu texto sobre Tropa de Elite sabe por que estou dizendo isso), é simplesmente um desabafo às próprias idéias da esquerda, na cara da esquerda. Um desabafo não só ao seu efeito prático, como também aos valores por trás das políticas que geram esses resultados desastrosos. O maior sintoma disso são os bordões do tipo, “bandido tem que ser tratado como bandido”, “bandido é bandido”. Um bandido não é um coitado que foi obrigado a fazer X ou Y. Ele escolheu, deliberadamente, esperando ter lucro fazer X ou Y, assim como qualquer outro ser humano escolhe fazer A no lugar de B. Ninguém o forçou a nada. E ele precisa responder pela sua escolha. Precisa ser responsável pelos seus atos. Não existe o “não tive escolha”, não foi culpa minha. E mais que isso, eu, vitima não devo nada a ninguém. Ganhei o que ganhei porque trabalhei, me esforcei. É como uma rejeição moral ao contrário dessas idéias, uma defesa desses valores que se produz uma reação tão extremada, como a idolatria do “pega para capa”, que tem como ícone o Capitão Nascimento.

[9] Por isso volto a afirmar, foi a própria esquerda quem produziu essa reação. Primeiro ao defender teorias absurdas sobre criminalidade, eximindo de culpa o criminoso e colocando a culpa na vitima, na sociedade, no sistema. Negando o valor do indivíduo, da importância das suas escolhas. E segundo ao derivar políticas de segurança pública que são verdadeiros desastres como a idéia de que policia e punições não são remédios, o que resolve são políticas sociais, penas têm apenas funções “ressocializantes” etc. Além disso, se a própria esquerda tivesse razão sobre a pobreza, falta de oportunidades como geradora de crimes, jamais poderia defender o que defende, mais governo, mais intervenção na economia. Se existe algum responsável “externo” pela pobreza crônica de milhões de pessoas, certamente não são os ricos, a classe média ou alguém mais abastado. É o governo (e seus defensores), que impede, através da força, milhões de pessoas de desenvolverem atividades produtivas, que dificulta a acumulação de capital com a sua política de “acabar com os ricos para ajudar os pobres” e consequentemente trava o crescimento da produtividade e dos salários. Numa sociedade capitalista não é garantido a ninguém, por principio, um alto bem estar material, uma alta qualidade de vida. As pessoas precisam produzir caso queiram tal objetivo e são livres para isso. Não é garantido a ninguém receber nada. Cada um precisa buscar seu próprio sustento, seus próprios objetivos. Os governos, com suas regulações, intervenções “bem intencionadas” só ajudam a impedi-las de fazer isso.

[10] Como dizia o saudoso Roberto Campos, na sua “fase liberal”:

"No socialismo as intenções são melhores que os resultados. No capitalismo os resultados são melhores que a intenção."

Apesar de não concordar inteiramente com essa frase (as intenções (!?) do capitalismo são melhores também), ela não deixa de ser um grande ensinamento para pessoas de que se dizem defensores dos pobres, trabalhadores e “desfavorecidos” como a esquerda adora fazer. Talvez isso evite novos "sustos" com Capitães Nascimentos.

2 comentários:

Renato C. Drumond disse...

Concordo em geral com o texto, mas acho que os pontos 4 e 5 são mais complexos e passíveis de discussão.

Claro, é o individuo que decide agir, mas ele decide DADO o ambiente, entao mudanças no ambiente podem levar uma parte a não agir de maneira criminosa.

Nesse sentido, eu acho que é possível dizer sim que pobreza ou desemprego poderiam levar a uma onda de violência, em outra situacao talvez aquele indivíduo não entrasse pro crime.

Anônimo disse...

Renato, cada um é responsável pelo que faz.. não importa se uma pessoa vive num ambiente cheio de pôneis ou num ambiente cheio de armas, morte e violência... não somos animais, temos que ser julgados pelas nossas escolhas independente de tudo.